O que eu aprendi em quase dois anos de doulagem

December 20, 2017

Já faz muito tempo que eu quero falar algumas de percepções, reflexões e principalmente de algumas vivências que tenho tido como doula. Quero também causar algumas reflexões em torno dessa atuação, afinal doula ainda não é uma profissão regulamentada.

Me formei em Maio/2016 e logo após o fim do curso já recebi uma doulanda, foi bem rápido mesmo. Sai do curso cheia de idealizações, romantismo e uma dose de ingenuidade.

Eu vivenciei uma realidade durante a formação que não correspondia com o cenário brasileiro de saúde reprodutiva, infelizmente o Brasil é um dos países com os maiores índices de cesarianas e isso dificulta muito a atuação de doulas, por mais que tenham leis que gataram o direito a mulher de ter a doula durante o trabalho de parto e parto.

Da mesma forma que encontrei um cenário difícil para atuar como doula os primeiros partos que acompanhei também foram intensos. Antes de falar sobre esses partos queria registrar a dificuldade de se cadastrar e atuar em muitas instituições publicas e privadas no estado de São Paulo.

É muito importante falar isso e eu não poderia deixar passar, pois essas instituições estão dificultando o cadastro e a permanência da doula em vez de facilitar.

Não poderia me calar.

 

(Imagem autoral. Trabalho de parto no Hospital Municipal do Cachoerinha-SP)

 

 

A primeira mulher que acompanhei durante a gestação e parto, teve o parto em uma instituição particular bem conhecida aqui na capital de SP (o cadastro nessa instituição foi complicado, fiz entrevista, levei uma série de documentos e tive que aguardar alguns dias para concluir o cadastro, além claro de ter que lidar com alguns funcionários nada interessados em ajudar). Cheguei no hospital logo após que ela, entrei e fiquei com ela durante a triagem, que envolve médico, exame de toque, soro e cardiotocografia. Depois desse processo fomos direto para a sala de parto, que conta com bola, banheira, banqueta, cavalinho e outros materiais. Após algum  tempo na sala um intenso sangramento começou, médicos, enfermeiras e muita agitação.. uma placenta descolada levando a uma cesariana de emergência, vivenciei a cirurgia.  

Essa doulanda decidiu por motivos financeiros parir com o plantonista do hospital, opção cada vez mais comum entre as mulheres.

 

(Imagem autoral. Acompanhamento gestacional -SP)

 

 

Segunda mulher que acompanhava durante a gestação apresentava um bebe pélvico! 
Sim, um bebe pélvico, aquele trabalho de parto e parto com um bebe sentado (pélvico) que eu tanto estudei em livros, um parto que deve ser bem assistido e exige uma equipe bem preparada. 
Essa doulanda optou por uma casa de parto publica, ela também fez aula de yoga comigo durante toda a gestação, acompanhei tudo bem de perto, a sua luta durante a gestação para uma cesária não agendada e um resgate de tranquilidade em meio a tantas opiniões sobre seu bebe e sua saúde.

Que alias, devo dar um conselho bem útil, pense o que você vai falar a uma mulher na maternidade, as vezes é melhor ficar quieta.Essa doulanda com um bebe pélvico não poderia ser atendida em sua primeira opção de local, então a opção foi uma casa de parto publica com estrutura para cesariana.

Também nós encontramos no local, essa doulanda chegou por lá com oito cm de dilatação, com um bebe pélvico!! Ela pode vivenciar grande parte do trabalho de parto, por normas da instituição ela foi encaminhada para uma cesária. Minha presença foi permitida por extrema empatia das seguranças, já que essa instituição pede um cadastro prévio com curso no local e aprovação. 

 

Nesses dois acompanhamentos gestacionais e atendimentos no parto, já pude sentir uma realidade bem diferente da que é transmitida. Eu senti uma enorme diferença em acompanhamentos que a mulher contava com a rede privada de saúde e a mulher que contava com a rede publica de saúde. Como vocês já puderam sentir até aqui nada foi tão fácil quanto parece quando falamos de atuar como doula.
Eu observei mulheres sendo literalmente negligenciadas em sua saúde, observei mulheres esperarem meses por um ultrassom no sus e tantas outras violações, diante disso eu senti um chamado muito forte em trabalhar com mulheres periféricas, afinal vamos voltar a origem da palavra Doula?
Doula = Aquela que serve a mulher. 
Aquela que serve e ponto, serve independente da classe social da doulanda.

Serve independente da instituição que a doulanda tem condições de parir.

Doula serve, ponto final.
Fico pensando em quanto seria positivo para a nossa sociedade se as doulas voltassem a raiz da palavra e se abrissem também para aquelas que vivem longe de centros urbanos, afastadas de muitos direitos que também são delas. Seria positivo demais se cada doula assumisse o compromisso de atender no minimo uma doulanda voluntariando por ano, no minimo.
Em 2017 atendi duas doulandas como voluntária, que alias devo agradecer muito a elas pela oportunidade de descobrir outras realidades em instituições privadas e publicas.
Mas sobre elas, falo jaja.

 

(Imagem autoral. Acompanhamento gestacional -SP)

 

Falando sobre voluntariado eu queria destacar a importância da valorização do trabalho da doula. Sim, super importante, eu já me senti desrespeitada algumas vezes e muitas colegas também já passaram por situação semelhante.


Sabe a maioria das doulas da capital de SP atuam de forma autônoma, não são muitas que fazem parte de equipes médicas e domiciliares. Então nós mesmas temos que cuidar de tudo, inclusive de retornos não recebidos, sumiços e outras situações. Não tem nada demais se identificar com outra doula, alias é recomendável que você conheça quantas sentir necessidade, mas seja sincera com a doula. É muito ruim combinar algo e quando a doula procura não tem resposta, pense que aquela mulher dedicou tempo, espaço e agenda para trabalhar com você. Também seja sincera em relação ao valor, que pode ser caro para você, mas jamais fale que esse trabalho não vale o cobrado. Muitas doulas oferecem flexibilidade no pagamento, voluntariado e outras opções que podem facilitar o pagamento.

 

(Imagem autoral. Acompanhamento gestacional -SP)

 


As duas gestantes que acompanhei como voluntaria tiveram suas bebes bem próximas, a primeira nasceu em uma instituição particular e a segunda nasceu em uma instituição publica. E que diferença, mais uma vez, quanta diferença!

A doulanda que teve seu parto em uma instituição privada teve o seu parto induzido, ela estava entrando na 41º semanas e por normas internas dessa instituição a partir dessa semana as cesarianas já são rotina hospitalar. Entramos juntas na maternidade no ultimo dia da 40º semana, após 42 horas de trabalho de parto com direito a massagem, caminhada, bola, rebozo também com algumas analgesias e indução com comprimido, ela ganhou sua pequena.

 


A doulanda que teve seu parto em uma instituição publica de saúde é minha amiga particular. Acompanhei desde da descoberta da gestação até seus dias no puerpério, ela fez aula de yoga gestante comigo, sessões de acompanhamentos doulagem constantes e muita preparação também em uma casa de parto publica. Minha amiga é universitária, mora com seu companheiro na periferia e dependeu totalmente do sus para seu pré-natal e parto, to falando isso porque mais uma vez é possível encontrar inúmeras diferenças e maiores dificuldades com mulheres nessa realidade. A história do trabalho de parto dela merecia uma postagem inteira, por tantas dificuldades superadas, por violências sofridas e direitos desrespeitados. Mas por no fim, um parto na água, sem analgesia. Após mais de 40 horas de bolsa rota. Minha amiga teve sua bebe em um hospital publico que depois fui a descobrir que tinha uma série de reclamações, denuncias e casos de violência obstétrica relacionados.

Um hospital maternidade onde eu vivenciei mulheres parindo no leito de um corredor, mulher perdendo bebe, mulher sofrendo por indução não consultada. 

 

(Imagem autoral. Parto no Hospital Municipal do Cachoerinha-SP)

 


Nesses quase dois anos atuando como doula eu aprendi muito mais sobre direito reprodutivo, direito sexual, influência sócio-econômica, educação básica, gênero e violência contra a mulher do que em qualquer outro momento da minha vida.

Eu vivenciei como o sistema de saúde exclui cruelmente mulheres por falta de condições econômicas de um parto com respeito, eu vi como o direito de parir é tirado de mulheres através de violência obstétrica e legitimado pelo estado. Eu observei mulheres chorando diante de um parto frustado e as apoiei na transmutação desse momento. Eu segurei na mão de muitas quando toda uma equipe médica e de enfermeiros viraram as costas para alguns cuidados. Eu limpei a lagrima de mulheres com medo de vivenciar uma cesária sem indicação.

Nesses quase dois anos eu vivenciei as dores e as alegrias de atuar como doula na capital paulista, digo que, precisamos de luta. Muita luta.

E minha postagem sobre o dia da doula vai de incomodo, reflexão e de luta. 

Boa comemoração para as doulas que lutam para servir a todas, sem excluir, agregando mulheres, úteros e ritos de passagem com amor e respeito.

 

 

 

 

 

 

 

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